Uma nova vida

Uma nova vida

Férias na casa dos meus pais é o mesmo que preguiça quadruplicada. Acordei quase na hora do almoço e percebi o clima bom que estava lá fora. Estava chovendo. Ainda fiquei durante mais algum tempo deitado na minha cama apenas escutando o barulho das gotas de água se chocando contra o telhado. Aquele cheiro de grama molhada também me deixou em um estado Zen de calmaria e satisfação.

Resolvi levantar da cama. Fui em direção à cozinha e me deparei com um almoço já pronto no micro ondas (te amo, mãe). Aí em seguida resolvi fazer algo produtivo e voltei para cama! Mas desta vez sob a companhia do meu amado notebook. Gastei do mínimo 5 horas apenas variando entre as redes sociais na internet. Paro em uma em específico durante um tempo e observo fotos de pessoas na academia. Como se a energia da imagem transpassasse pelas ondas internéticas e me atingisse, resolvi me levantar e ir em direção ao começo de uma vida saudável.

Me visto com a primeira roupa que eu achei, que poderia ser confortável, na gaveta. E, parti.

O caminho não me era estranho, pois no dia anterior eu havia andado por ele em direção ao mesmo objetivo, mas não cheguei a entrar dentro do local, pois observei o valor da mensalidade e isso feriu meu bolso. Vamos dizer que eu havia levado quatro vezes menos de dinheiro pensando que com isso seria possível me matricular. Mera decepção.
Não, não foi desta vez que levei o valor correto. Eu apenas tinha a mentalidade de que poderia realizar uma primeira aula gratuita para quem sabe depois ferir a minha poupança.

Na recepção a moça que me atendeu disse que era viável a aula teste. Entrei na academia, me alonguei e em seguida tentei relembrar a série de exercícios que eu fazia antes de me tornar sedentário.

A academia possuía dois andares, mas os exercícios que eu pretendia fazer estavam apenas no andar de cima. Segui o instrutor em direção às esteiras. Passei por uma gestante e por dois anciãos no caminho até lá. Chegando na esteira pude ter uma visão global do ambiente. Havia apenas duas garotas, uma recebendo orientações de como fazer um exercício por um instrutor musculoso e nada inocente e a outra caminhando na esteira com uma diferença de 6 esteiras entre a minha e a dela. Havia também um jovem rapaz não muito baixo com uma camisa regata do Superman, um short e um tênis Vans que estava sendo observado por um careca musculoso que se abanava com um leque. Além dessas pessoas haviam várias outras do estilo estereotipado de academia: ou idosos na geração saúde ou caras musculosos e garotas fúteis. Claro, claro, com exceções pequenas exceções…

A varanda tinha uma boa visão que até mesmo daonde eu me encontrava era possível apreciá-la (talvez porque eu gosto de observar as lágrimas das nuvens).
Ligo a esteira e começo a caminhar alternando com alguns minutos de corrida. Este é um bom passatempo para fazer enquanto se reflete sobre a vida e aprecia as garotas cujas beldades são magneticamente atraídas pelo meu raio de visão. No caso, eu estava a observar a garota na esteira.

Perco a atenção da garota por um momento quando escuto um gemido/grito. Não, não era de algum cara musculoso enquanto carregava algum peso exorbitante, era de uma gestante fazendo um exercício de agachamento.

Não resisto em ficar curioso em saber o porquê uma gestante estaria naquele local, mas volto minha atenção para a garota de rabo de cavalo correndo. Quando observo o local em que ela estava, percebo que não mais ali ela se encontrava! Tento discretamente procurá-la quando de repente percebo que ela tinha trocado para uma esteira ao lado da minha! Quase caio devido a surpresa que tive, mas tento contornar a minha reação fingindo uma tosse.

Paralelo meus movimentos aos dela (no que eu estava pensando?) e começo a correr junto a ela. Se eu ao menos soubesse como começar um diálogo sem nenhum motivo eu não estaria solteiro nos dias de hoje.

Sobreponho o tempo que eu pretendia correr para permanecer ao lado dela por mais um tempo, mas após alguns minutos eu resolvo sair da esteira e recuperar meu fôlego no banheiro.

Ao sair do banheiro percebo um alarde perante o pessoal que ali se reunia. Ao que parecia a gestante havia estourado a bolsa e estava sentindo contrações fortes. Ninguém aparentava saber como reagir perante a ocasião, então eu tomei a iniciativa. Mandei ligarem para a ambulância e fiz algumas perguntas para a mulher. Ela estava entrando em trabalho de parto pouco tempo após a bolsa estourar! Mas, afinal, quanto tempo eu fiquei no banheiro?

Pergunto se alguém tem um carro para levá-la ao hospital mais próximo, mas por incrível que pareça ninguém tinha!

É… Neste momento percebi que eu teria que fazer o parto ali mesmo. Devido ao fato da mulher ser multípara a facilidade dela ter o filho rapidamente era enorme! Já estava me imaginando com uma luva de beisebol esperando para agarrar o bebê assim que saísse. Sim, apesar da situação ainda arranjei tempo em imaginar algo assim.

Como se eu estivesse fazendo uma cirurgia e tivesse um bando de instrumentalistas para me ajudar, eu comecei a dar ordem e foram obedecendo. Pedi para a mulher deitar em uma mesa e ficar em posição de litotomia. Em seguida disse para trazerem toalhas. Com algumas das toalhas cobri o local logo abaixo em que o bebê estava suposto a dar o ar das graças e com as outras toalhas solicitei que ocultassem, ao menos parcialmente, o local do parto (para evitar que curiosos em excesso vejam a moça desnuda).

Em questão de minutos aparece o rosto do bebê pela vagina da parturiente. Por sorte eu havia aprendido como proceder diante desta situação durante um estágio no hospital que fiz no passado. No entanto, a diferença entre parto no hospital e em uma academia ainda estava me preocupando.

O bebê nasceu sem intercorrência. O pego nos meus braços, ignorando o sangue e dejetos que entrei em contato ou que visualizei, e o coloco sob o peito da recém mãe.
Recebemos um salve de palmas e após isso escuto a sirene da ambulância. Trabalho já estava concluído, mas ao menos poderão tomar as providências após este parto nada limpo ou estéril…

Eu acompanho a pós parturiente e o novo ser ao hospital. E me dirijo para casa após explicar o ocorrido aos médicos. Em casa tomo banho e depois me jogo na cama para dormir por mais um tempo enquanto digo a mim mesmo que voltarei a ser sedentário.

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Apenas mais um texto ao estilo “Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência!” que resolvi escrever após um período de hiato do blog. Ainda planejo concluir algumas postagens que tenho semi prontas, além de excluir outras. Mas isso só o tempo dirá… Ah, feliz dia do escritor (25/07) para todos os escritores que nos proporcionam ótimos textos

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